
A disputa entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) ganhou um novo cenário nos últimos dias: os corredores dos supermercados. O preço dos alimentos passou a ocupar espaço crescente na comunicação eleitoral dos dois campos, com vídeos, comparações e respostas produzidas especialmente para as redes sociais.
A estratégia da oposição busca explorar a percepção do eleitor sobre o custo de vida. Aliados de Flávio têm publicado vídeos mostrando produtos e valores considerados elevados, utilizando situações encontradas em supermercados para questionar o desempenho econômico do governo.
Do outro lado, conteúdos ligados ao campo governista passaram a responder utilizando outros estabelecimentos, preços menores e dados econômicos para contestar a narrativa apresentada pelos adversários.
O resultado é uma disputa que transforma um assunto tradicionalmente explicado por índices de inflação, séries históricas e indicadores econômicos em algo muito mais simples de visualizar: quanto determinado produto custa na prateleira.
Exemplos isolados exigem cuidado
A estratégia também traz um problema importante. O preço encontrado em determinado supermercado não representa necessariamente a média de uma cidade, muito menos do Brasil.
Um dos conteúdos compartilhados por Flávio Bolsonaro, por exemplo, mostrava uma compra de R$ 626,55 apresentada como composta por itens básicos e sem carne. A checagem da nota fiscal mostrou que R$ 140,67 haviam sido gastos em carnes e derivados, além da presença de produtos como refrigerante e energético.
O episódio demonstra como conteúdos aparentemente simples podem exigir verificação antes de serem utilizados como argumento econômico.
Do ponto de vista da comunicação política, a estratégia ajuda a compreender como deverá funcionar parte da campanha de 2026.
Falar sobre IPCA, inflação acumulada ou política monetária exige contexto. Mostrar arroz, café ou carne diante de uma etiqueta de preço produz uma mensagem compreensível quase instantaneamente.
É exatamente esse tipo de linguagem que se adapta aos formatos de Reels, TikTok e Shorts: visual, rápida, emocional e facilmente compartilhável.
Por isso, a disputa pelo preço dos alimentos deverá continuar. Mais do que discutir quem apresenta o número economicamente mais representativo, as campanhas também disputam qual experiência cotidiana o eleitor reconhecerá como mais próxima da própria realidade.
Nesse cenário, o supermercado deixa de ser apenas um lugar de consumo e passa a funcionar como cenário de propaganda eleitoral. A batalha será não apenas pelos indicadores econômicos, mas pela narrativa sobre quanto o dinheiro do brasileiro consegue comprar.
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