
O varejo brasileiro passa por uma mudança estrutural. Durante décadas, crescer significava ampliar a presença física, abrir novas unidades e conquistar espaços em ruas comerciais e shopping centers. Agora, uma parcela cada vez maior da disputa pelo consumidor acontece diretamente na tela do celular.
Um levantamento da Broadcast, elaborado com base nos balanços das próprias companhias, mostra a dimensão dessa transformação. Desde o fim de 2022, Casas Bahia, Americanas, Carrefour, Marisa e Magazine Luiza reduziram, juntas, em mais de 1,1 mil o número de lojas físicas no país. O cálculo considera a redução líquida das redes, descontando eventuais inaugurações realizadas no período.
O movimento não possui uma única explicação. As empresas atravessaram situações financeiras e estratégias distintas, mas enfrentam um ambiente comum marcado por juros elevados, crédito mais caro, consumidores endividados e crescimento dos canais digitais e marketplaces, inclusive plataformas internacionais.
A redução aparece de maneira diferente em cada companhia.
No Carrefour, a rede passou de 1.203 lojas no fim de 2022 para aproximadamente mil unidades em março de 2025, último dado detalhado antes do fechamento de capital da empresa no Brasil. A diferença inclui encerramentos, vendas e conversões de bandeiras, com 123 unidades efetivamente fechadas.
A Marisa terminou 2025 com 230 lojas, contra 334 três anos antes, uma redução de 104 unidades. Já o Magazine Luiza chegou a junho de 2026 com 1.246 pontos físicos, 93 a menos que os 1.339 registrados no fim de 2022. Apesar da redução recente, o Magalu já sinalizou retomada de aberturas a partir do segundo semestre deste ano.
Casas Bahia e Americanas enfrentaram processos de reestruturação ainda mais intensos. A Casas Bahia, que atravessa uma reorganização financeira envolvendo dívida bilionária, já fechou centenas de unidades. A Americanas também enxugou significativamente sua rede durante o processo de recuperação judicial.
O fechamento de unidades não significa necessariamente o desaparecimento das lojas físicas.
Para algumas redes, a estratégia passa a ser manter menos pontos, mas torná-los mais eficientes e integrados ao comércio eletrônico. Uma loja pode funcionar simultaneamente como espaço de venda, retirada de compras realizadas pela internet, ponto de troca e apoio logístico para entregas.
A lógica do varejo passa, portanto, de uma expansão baseada exclusivamente em quantidade de endereços para uma combinação entre presença física, aplicativo, marketplace, logística e dados sobre o comportamento do consumidor.
Essa transformação também altera a concorrência. O cliente que antes escolhia entre lojas de uma mesma avenida ou shopping agora compara preço, prazo e reputação de dezenas de vendedores sem sair de casa.
Para as grandes redes brasileiras, o desafio deixou de ser simplesmente estar presente em mais cidades. A disputa passa a ser por estar presente no momento em que o consumidor decide comprar, independentemente de essa decisão acontecer diante de uma vitrine ou dentro de um aplicativo.
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