O número de brasileiros em situação de endividamento de risco chegou a 20,3 milhões em junho de 2026, uma alta de 75% em relação ao mesmo mês de 2021. Os dados foram divulgados pelo Banco Central (BC), nesta terça-feira (27), no Relatório de Estabilidade Financeira.
O contingente representa 17% dos devedores do Sistema Financeiro Nacional. O levantamento chama atenção para consumidores que acumulam condições de maior vulnerabilidade financeira, como comprometimento elevado da renda, atrasos e uso de diferentes modalidades de crédito.
Diante do avanço do problema, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, afirmou que a instituição pretende anunciar novas medidas para conter ofertas agressivas de crédito ainda neste ano. A preocupação inclui pessoas que já recorrem ao rotativo do cartão ou apresentam dificuldades significativas para pagar suas obrigações.
Dívidas consomem 42% da renda entre os que ganham menos
Entre as pessoas que recebem até dois salários mínimos, o comprometimento médio da renda com dívidas atingiu 42%. Somente as obrigações relacionadas ao cartão de crédito consumiram 15% dos rendimentos dessa faixa.
O peso é superior ao observado entre os consumidores com renda acima de dez salários mínimos, cujo comprometimento total chegou a 18,6%. Os números mostram diferenças na parcela do orçamento destinada ao pagamento de dívidas conforme a faixa de rendimento.
Galípolo também demonstrou preocupação com o crescimento de modalidades sem garantia, como cartão de crédito, cheque especial e empréstimo pessoal não consignado, mesmo em um cenário de juros elevados.
“Pretendemos adicionar medidas ainda este ano”, afirmou o presidente do BC.
Endividamento de risco não significa necessariamente inadimplência
Para enquadrar um consumidor nessa classificação, o Banco Central considera a combinação de pelo menos dois indicadores de vulnerabilidade.
Entre eles estão atrasos superiores a 90 dias, comprometimento de mais de metade da renda mensal com dívidas, uso simultâneo de cheque especial, crédito pessoal sem consignação e rotativo do cartão, além de renda restante abaixo da linha de pobreza após os pagamentos.
Isso significa que uma pessoa pode estar em situação de risco mesmo mantendo as parcelas em dia. O indicador considera também a capacidade de sustentar os pagamentos sem comprometer excessivamente os recursos disponíveis para as demais despesas.
Segundo o relatório, a digitalização dos serviços financeiros ampliou a exposição dos consumidores de menor renda às ofertas de crédito. O BC também apontou crescimento da procura por modalidades mais caras, como cartão e empréstimos não consignados.
Novas regras buscam ampliar proteção e transparência
Parte das medidas já anunciadas prevê mecanismos para bloquear publicidade e propostas ativas de crédito. As regras de bloqueio deverão entrar em vigor em 31 de março de 2027.
Outra mudança é a criação do Painel de Dívidas Consolidadas nos aplicativos e plataformas das instituições financeiras. A ferramenta deverá apresentar informações sobre obrigações contratadas, comprometimento da capacidade de pagamento e riscos relacionados à tomada de novos empréstimos.
A regulamentação prevê simulação dos custos antes da contratação e alertas automáticos em situações de possível endividamento desproporcional. Os principais dispositivos do painel entram em vigor em 1º de julho de 2027.
As iniciativas procuram dar ao consumidor uma visão mais clara do conjunto de suas dívidas antes de assumir novas parcelas. O desafio apontado pelo relatório é conter o agravamento da vulnerabilidade financeira em um cenário de maior acesso ao crédito e forte pressão dos pagamentos sobre a renda.
Referências: CNN | Agência Brasil | LegisWeb