Brasil Tecnologia
Vídeos eleitorais criados com inteligência artificial ultrapassam 21 milhões de visualizações no TikTok, aponta investigação
Levantamento do Aos Fatos revela uso de eleitores fictícios, falsas reportagens e redes coordenadas de perfis para disseminar conteúdos políticos durante as eleições de 2026
28/10/2026 05h22
Por: Políticas & Negócios Fonte: Tamiris Leitão

O avanço da inteligência artificial na produção de conteúdos digitais trouxe novos desafios para o combate à desinformação durante as eleições brasileiras de 2026. Uma investigação publicada pelo veículo de checagem Aos Fatos, no último domingo (25), identificou vídeos que simulavam entrevistas com eleitores e reportagens jornalísticas, acumulando pelo menos 21 milhões de visualizações no TikTok.

As produções utilizavam recursos de inteligência artificial para criar situações aparentemente reais, incluindo pessoas fictícias apresentadas como eleitores e vídeos que reproduziam a linguagem visual de telejornais.

O levantamento evidencia como ferramentas de geração de imagens, vozes e vídeos passaram a ser utilizadas para produzir conteúdos políticos capazes de confundir o público sobre a autenticidade das informações.

Redes coordenadas ampliaram circulação de conteúdos

A investigação também destacou a atuação de estruturas conhecidas como “fazendas de IA”, formadas por diferentes perfis que produzem ou compartilham conteúdos de maneira coordenada.

Uma dessas redes, identificada em levantamento do Instituto Democracia em Xeque divulgado pelo Aos Fatos, reunia 255 perfis no Instagram, responsáveis por publicar ou participar de 1.204 postagens.

Entre 15 de agosto e 15 de setembro, os conteúdos acumularam aproximadamente 58 milhões de visualizações, demonstrando a capacidade de distribuição dessas estruturas.

O estudo identificou publicações relacionadas a ataques políticos, promoção de figuras públicas e disseminação de narrativas eleitorais. Também apontou a baixa utilização de identificações que informassem ao público a presença de conteúdo produzido por inteligência artificial.

Simulação de realidade desafia identificação de notícias falsas

Um dos aspectos mais preocupantes identificados pela reportagem é a utilização de formatos tradicionalmente associados à credibilidade, como entrevistas de rua e reportagens televisivas.

Ao reproduzir cenários, apresentadores e depoimentos com aparência realista, os vídeos podem levar usuários a acreditar que estão diante de registros autênticos.

A estratégia amplia os desafios para jornalistas, veículos de comunicação e plataformas digitais, especialmente porque os conteúdos podem circular rapidamente antes de serem identificados ou verificados.

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) já havia estabelecido regras para a utilização de inteligência artificial em campanhas eleitorais, incluindo exigências de identificação de materiais sintéticos e restrições a determinados usos da tecnologia. Ainda assim, a investigação identificou a circulação de conteúdos que contrariavam essas normas.

Desinformação exige novas práticas de verificação

O crescimento dessas ferramentas também reforça a necessidade de cuidados na produção e no compartilhamento de informações.

Para veículos jornalísticos, profissionais de comunicação e usuários das redes sociais, a verificação da origem de vídeos, a consulta a fontes confiáveis e a identificação de materiais produzidos artificialmente tornam-se medidas cada vez mais importantes.

Outro ponto relevante é que o número de visualizações não representa necessariamente a quantidade de pessoas diferentes alcançadas, tampouco permite concluir que os conteúdos tenham provocado mudanças no comportamento eleitoral.

O levantamento demonstra, sobretudo, a dimensão da circulação de materiais políticos produzidos ou distribuídos com o auxílio de inteligência artificial.

A investigação do Aos Fatos evidencia uma transformação no ambiente digital brasileiro: à medida que a tecnologia torna mais fácil produzir conteúdos convincentes, cresce também a importância da transparência, da responsabilidade das plataformas e do trabalho de checagem para proteger a qualidade da informação pública.