Cultura História
Arqueólogos descobrem tumba de mais de 4 mil anos no Egito com “porta falsa” que simbolizava ligação entre vivos e mortos
Estrutura encontrada em Saqqara pertencia a um alto funcionário do Egito Antigo e preserva elementos que ajudam pesquisadores a compreender rituais funerários realizados há cerca de 4.350 anos
11/09/2026 01h30
Por: Políticas & Negócios Fonte: Tamiris Leitão

Uma descoberta arqueológica no Egito voltou a revelar detalhes sobre a relação dos antigos egípcios com a morte e a vida após ela. Arqueólogos encontraram, na necrópole de Saqqara, a tumba de Sekhentiu-Ptah, um importante funcionário do Reino Antigo, com aproximadamente 4.350 anos. Entre os elementos preservados está uma chamada “porta falsa”, estrutura que não levava fisicamente a lugar algum, mas possuía profundo significado religioso. 

A descoberta foi feita por uma missão arqueológica egípcia durante escavações na região do Bubasteion, área da necrópole de Saqqara, ao sul do Cairo. O local integrava a antiga região funerária de Mênfis e continuou sendo utilizado para sepultamentos em diferentes períodos da história egípcia. 

A tumba preserva parte de uma capela funerária e a porta falsa em sua posição original. Para os antigos egípcios, estruturas desse tipo funcionavam simbolicamente como uma passagem entre o mundo dos vivos e o dos mortos, permitindo que a força vital do falecido recebesse as oferendas deixadas pelos familiares. 

Quem era Sekhentiu-Ptah?

Inscrições hieroglíficas encontradas no local permitiram aos pesquisadores identificar o proprietário da tumba e conhecer parte de sua posição na sociedade egípcia.

Sekhentiu-Ptah acumulou funções de grande relevância na administração real. Entre seus títulos estavam camareiro real, supervisor das obras do rei, supervisor dos documentos reais, sacerdote da deusa Maat e supervisor dos escribas. 

Um dos títulos registrados foi traduzido como “guardião dos segredos dos decretos reais”. Apesar do caráter misterioso da expressão, especialistas acreditam que ela estivesse relacionada ao acesso a documentos e informações confidenciais da administração do faraó, e não necessariamente a alguma função secreta de caráter religioso. 

As características arquitetônicas indicam que a tumba provavelmente pertence ao final da 5ª Dinastia ou início da 6ª Dinastia, durante o Reino Antigo, período associado também à construção de alguns dos mais conhecidos monumentos funerários da civilização egípcia. 

Uma porta construída para não ser aberta

A chamada porta falsa é um dos elementos que mais chamam atenção na descoberta justamente porque sua função nunca foi permitir a passagem física de uma pessoa.

Na tradição funerária egípcia, ela representava um ponto de comunicação simbólica com o além. O espírito ou força vital do falecido poderia atravessá-la e receber alimentos e outras oferendas deixadas diante da estrutura pelos vivos. 

Em frente à porta de Sekhentiu-Ptah, os arqueólogos encontraram um conjunto de objetos rituais de alabastro ainda associado ao espaço funerário, incluindo mesa de oferendas, objetos utilizados em rituais e recipiente para purificação. Algumas peças também apresentam inscrições com o nome e os títulos do antigo funcionário. 

A preservação desses elementos em suas posições originais é especialmente valiosa para os pesquisadores, pois permite reconstruir não apenas quais objetos eram utilizados, mas também como os rituais funerários eram organizados dentro das tumbas.

Mais de 100 estatuetas e sarcófagos fechados

A descoberta foi além da tumba de Sekhentiu-Ptah. Nas proximidades, a missão identificou uma rede de poços funerários interligados contendo restos humanos e diversos artefatos.

Entre os achados estão mais de 100 ushabtis de faiança, pequenas figuras colocadas nos túmulos para acompanhar e servir simbolicamente ao morto na vida após a morte. Também foram encontrados objetos de cerâmica, fragmentos de materiais funerários decorados e uma figura de madeira em formato de falcão. 

Os pesquisadores localizaram ainda três sarcófagos de pedra que permaneciam selados. Ao mesmo tempo, evidências mostram que outras partes do complexo foram saqueadas ainda na Antiguidade e que a área continuou sendo reutilizada para sepultamentos durante períodos posteriores. 

As escavações e análises científicas devem continuar. Para os arqueólogos, o conjunto poderá ampliar a compreensão sobre os costumes funerários, a organização administrativa e as transformações sofridas pela necrópole de Saqqara ao longo de milhares de anos.

Mais de quatro milênios depois, a porta que nunca deveria ser fisicamente aberta acaba cumprindo outra função: oferecer aos pesquisadores atuais uma passagem para compreender como os antigos egípcios imaginavam a relação entre a vida, a morte e aquilo que acreditavam existir depois dela.