O clima voltou a ocupar o centro das atenções dos pesquisadores diante do rápido fortalecimento do El Niño, fenômeno climático que altera a circulação atmosférica e pode provocar impactos em diferentes partes do planeta. Em agosto de 2026, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) elevou para mais de 90% a probabilidade de um episódio muito forte entre o fim de 2026 e o início de 2027. Há ainda 69% de chance de que a intensidade registrada entre outubro e dezembro alcance níveis históricos, potencialmente superando os eventos observados desde 1950.
O El Niño ocorre quando as águas superficiais do Pacífico Equatorial ficam anormalmente quentes e essa alteração passa a interagir com a atmosfera. Em condições normais, os ventos alísios deslocam águas quentes em direção à Indonésia, enquanto águas mais frias e ricas em nutrientes sobem na costa do Peru. Durante o fenômeno, esses ventos enfraquecem, permitindo que o calor acumulado no Pacífico se desloque para o leste e modifique os padrões de circulação atmosférica.
É justamente essa conexão entre oceano e atmosfera que explica por que um fenômeno iniciado no Pacífico pode influenciar temperaturas e chuvas a milhares de quilômetros de distância. No Brasil, os efeitos mais conhecidos incluem maior tendência de seca no Norte e no norte do Nordeste e aumento das chuvas no Sul, embora a intensidade e a distribuição dos impactos dependam de outros fatores climáticos. O INPE destaca ainda que, caso o El Niño persista no segundo semestre de 2026, seus efeitos poderão se estender para 2027.
A preocupação com a intensidade do atual episódio também leva os pesquisadores a olhar para os grandes El Niños do passado. Um dos exemplos mais marcantes ocorreu entre 1982 e 1983, quando o fenômeno provocou efeitos severos no Brasil. O Nordeste enfrentou uma forte estiagem, enquanto Santa Catarina registrou episódios de chuva extrema e inundações de grandes proporções. Registros históricos apontam que o evento atingiu fortemente a agricultura nordestina e provocou graves prejuízos no Sul do país.
A dimensão daquele episódio contribuiu para ampliar a estrutura internacional de observação do Pacífico. Hoje, centenas de equipamentos instalados no oceano monitoram variáveis como temperatura da água, ventos e condições atmosféricas, enviando informações que ajudam os cientistas a acompanhar a evolução do fenômeno e elaborar previsões com meses de antecedência.
Mas os instrumentos modernos não são a única fonte de informação. Para compreender como o clima se comportou antes da existência dos satélites e das estações meteorológicas, pesquisadores também recorrem a registros naturais preservados durante milhares de anos.
Em cavernas, por exemplo, formações como estalagmites funcionam como verdadeiros arquivos naturais. Durante períodos de chuva intensa e enchentes, sedimentos podem se acumular sobre as rochas. Com o passar do tempo, novas camadas se formam e preservam marcas das condições ambientais anteriores.
A análise dessas camadas permite reconstruir parte da história climática de uma região. Algumas estalagmites estudadas pelos pesquisadores guardam registros de milhares de anos, oferecendo pistas sobre a frequência e a intensidade de eventos extremos muito anteriores ao período das medições instrumentais.
Esse tipo de pesquisa é importante porque permite comparar o comportamento climático atual com acontecimentos do passado. Ao combinar dados de satélites, boias oceânicas, modelos climáticos e registros naturais, os cientistas conseguem ampliar a compreensão sobre os mecanismos que fazem o El Niño surgir, ganhar força e influenciar diferentes regiões do planeta.
A previsão atual exige atenção especialmente para regiões que historicamente apresentam respostas mais marcantes ao fenômeno. O INPE aponta que o Norte e o Nordeste podem enfrentar condições mais secas, enquanto o Sul tende a registrar maior frequência e volume de chuva. Temperaturas acima da média também podem ocorrer em diferentes áreas do país.
Para estados do Sul, o histórico mostra que episódios fortes de El Niño podem aumentar o risco de chuvas volumosas, enchentes, enxurradas e deslizamentos. Santa Catarina, por exemplo, mantém monitoramento específico devido à relação histórica entre o fenômeno e eventos extremos no estado.
Já no Nordeste, a preocupação está principalmente relacionada à redução das chuvas em determinadas épocas do ano. Estudos sobre o semiárido paraibano mostram que a relação entre El Niño e precipitação também depende das condições do Atlântico, o que significa que o fenômeno não determina sozinho o comportamento das chuvas.
Por isso, falar em um possível “Super El Niño” não significa que todos os efeitos possam ser previstos com precisão. A intensidade do fenômeno é apenas uma das variáveis que determinam como cada região será afetada. O que os dados atuais mostram é um cenário que merece acompanhamento constante — e que reforça a importância de antecipar riscos, preparar sistemas de alerta e compreender cada vez melhor a dinâmica do clima.